Sab06242017

Última atualizaçãoQui, 22 Jun 2017 6pm

Artigo

O machismo bate na nossa cara

Por: Érica Araújo Castro / Articulista do Jornal www.estadoatual 

www.facebook.com/ericaaraujoecastro

Nos últimos dias temos vivido momentos em que o machismo de nosso dia a dia tem escancarado sua cara múltipla, mista: de atores a atrizes famosos a pessoas “comuns” através de seus comentários em suas redes sociais ou nas notícias, a participantes do Big Brother Brasil (BBB).

E aí percebemos como a coisa está feia e por mais que se considerem os avanços conquistados por muita luta através do feminismo que abriu frentes para a manifestação e maior inclusão das mulheres na sociedade, ainda há muito o que fazer e muito pelo qual lutar.

Por exemplo, para grande constrangimento da emissora e de sua família, o ator José Mayer, casado há 45 anos, foi denunciando por uma figurinista da Globo por assédio tão consistente e ameaçador que incluíram além da cantadas, o toque não autorizado em sua vagina. Quando Su Tonani não correspondeu, passou a ser chamada de “vaca” mesmo na frente de outras pessoas. Primeiramente, negou tudo. Disse que ela estava confundindo seu personagem com ele mesmo. Depois, desculpou-se.

Caio Blat e Oscar Magrini entraram em defesa de seu colega de trabalho dizendo frases como “O Zé a gente conhece” ou “a mulher tem que saber se colocar para não provocar”.

Ainda no BBB, que serve como um experimento social, vimos um médico, o Marcos, gritando com várias mulheres, constrangendo-as, com dedo em riste em seus rostos. Em outra situação, apertou o braço de sua namorada, deixando-o com uma marca roxa, além de machucar seu pulso, reclamação que ela fez a ele em meio a discussões em que ele a abraçava a força, deitava sobre ela mesmo quando ela o repelia etc. Ao mesmo tempo, exigia que ela falasse baixo, que se calasse, que aceitasse em silêncio o que ele estava dizendo e fazendo – para em seguida cair no choro e se desculpar. Um verdadeiro circo de horrores que reproduziu em rede nacional a situação de milhares de mulheres o Brasil inteiro que convivem com parceiros – não loucos ou desequilibrados – mas homens comuns, educados para darem a última palavra e classificarem de louca qualquer mulher que se coloque contra seus desejos.

Importa para Marcos que Emily se sinta agredida? Não. Importa para Marcos que Emily seja muito menor que ele e que acossá-la em um canto de dedo em riste deixá-la-á temerosa por sua segurança física? Não.

Não importa ao “dono” moderno do corpo feminino como a mulher sente-se ao ser exposta ao que ele acha normal. Gritar com ela? Ele pode – mas se ela levanta a sua voz é imediatamente classificada de mal educada e desequilibrada. Mexer com ela na rua, incomodando-a pelo simples fato de que ela está passando por ali? Pode. E se ela reclamar é mal educada e não sabe receber “elogios”. (Obviamente, importa pouco se ela acha o comportamento dele, o tal “macho”, inconveniente e predatório).

Porque o que importa mesmo é o que pensam os nossos machos, essas crianças mimadas em corpos de adultos, que não podem ser contrariadas pelas mulheres, suas inferiores, e reagem com gritos ou palavrões à menor negação de seus desejos.

Na verdade, fico aqui me perguntando qual é o pior: o homem que possui esse tipo de comportamento ou a mulher que sai em sua defesa.

Foi o que vimos Maitê Proença fazer me relação ao José Mayer, quando a mesma disse que é preciso ter um nível de tolerância para o assédio, senão a vida fica chata.
Não. Não é preciso ter tolerância para o assédio, uma vez que o mesmo é crime, tipificado no Código Penal, artigo 216.

Antes, é preciso separar com clareza o que é do jogo social saudável, das formas aceitas de tentativas de contato entre pessoas que possuem interesse em alguém e o alvo de seus interesses.

Aproximar-se de alguém e manifestar educadamente e de maneira não invasiva esse interesse, não é assédio nem violência. Solicitar os contatos de alguém de maneira polida e sem excessos também não. Aproximar-se de uma estranha com quem tem trocado olhares e perguntar se poderia conhecer-lhe iniciando a conversa muito menos.
Porém acreditar que é normal agir insistentemente das maneiras citadas depois de várias negativas é ser, no mínimo, grosseiro, mal educado – machista. É assédio, já que passa a ser constrangimento – e sendo tal, seria inapropriado, mesmo que não fosse ilegal.

O que os casos citados nos mostram é que os homens em nossa sociedade precisam urgentemente aprender a receber um “não” como resposta e deixar quem disse o não em paz.
E o interessante sobre o assunto ainda é que sempre que casos assim são mencionados, aparecem aqueles que correm a dizer “mas eu não sou assim!”.

Não é? Que ótimo! E o que você faz para que o seu “brother” não seja? O que você faz quando seu amigo segura a “mina” pelo cabelo na balada ou quando você vê aqueles seus amigos de república cercando moças no carnaval e obrigando-as a beijar-lhes?

Nada, né, amigão? Você não faz nada. Lembro-lhe uma frase de Martin Luther King: “o que me incomoda não é o barulho dos maus. Mas o silêncio dos bons” – então, se você realmente acredita que não se encaixa na reprodução do comportamento machista engaje-se no combate a ele. Porém pelos motivos certos.

Não porque você tem mãe, irmã, amigas, primas ou filhas. Mas sim porque as mulheres são sujeitos de direito e merecem ser tratadas com respeito por todos. Por você e pelos seus amigos. Por todos. Só assim o machismo parará de bater na nossa cara todos os dias a todos os momentos – até dentro de nossas casas quando ligamos a TV.

Considero impressionante hoje, em pleno século XXI, ter que repetir essa verdade porque ainda não foi absorvida pela sociedade. Que vergonha!

Foto:  Érica Araújo Castro / Articulista do Jornal www.estadoatual